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CLE – Uma proposta de alfabetização
para países em desenvolvimento

por Glória Maria Guiné de Mello Carvalho

Professora Assistente de Tradução no Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Ouro preto (UFOP); Chefe do Departamento de Letras e professora da Metodologia CLE. 

Reproduzido do Jornal do Projeto Lighthouse nº 2 
Rotary Club de Ouro Preto 
Distrito 4580

O CLE é metolodologia defendida por Rotary International para a alfabetização em massa de crianças em países com altas taxas de alfabetização e com problemas de anlfabetismo funcional.  

A metodologia CLE de ensino surgiu a partir de reflexões que buscavam uma forma de eliminar o fracasso escolar, principalmente nos países em desenvolvimento.

O CLE – Concentrated Language Encounter  —  que traduzo como Abordagem Linguística Concentrada (ALC)  — começou a ser desenvolvido na Austrália, no início da década de 80, quando a equipe da Traeger Park School, no norte do país, iniciou  um projeto para combater os altos índices de fracasso escolar  entre as crianças aborígines.

 Este fracasso costuma  ser, em grande parte, atribuído à origem dos alunos. Acredita-se que as crianças vindas da zona rural ou pertencentes às camadas mais pobres da população terão maiores dificuldades durante a aprendizagem porque começam a frequentar a escola com pouquíssimo ou nenhum contato prévio com o mundo da escrita.  Já as crianças cujos pais são alfabetizados e que têm acesso a livros e outros materiais impressos teriam a vantagem de já conhecer algumas formas e convenções da língua escrita, bem como sua utilidade,  que ainda precisam ser descobertas pelas outras crianças.

 Entretanto, Richard Walker, Saowalak Rattanavich e John
Oller Jr.,  —  autores de Teaching All The Children to Read,  
livro que apresenta a metodologia CLE de ensino —  acreditam,  baseados na experiência australiana e no projeto desenvolvido na Tailândia, que os altos índices de fracasso escolar se devem mais ao que ocorre na sala de aula do que à origem  dos alunos e/ou à falta de contato prévio com a leitura e a  escrita.

 

A partir da constatação de que, em qualquer parte do  mundo, não importa qual seja a origem dos alunos, há um enorme processo de exclusão daqueles que simplesmente não se ajustam aos métodos tradicionais de ensino, não compreendem o que acontece  na sala de aula e não aprendem a aprender fora do ambiente escolar, mas apenas a executar o que é-lhes pedido, foi criada a metodologia CLE.   

A primeira proposta do CLE é mudar o procedimento na sala de aula tradicional, em que o professor dirige todas as atividades e os alunos têm pouquíssimas oportunidades de interagir com ele e com os colegas. Foram, então, desenvolvidas atividades em que os alunos aprendem a ler e escrever ao mesmo tempo em que adquirem habilidades não linguísticas, úteis para sua vida cotidiana. Assim,  adquirem gosto pela leitura e pela escrita e se tornam agentes da própria aprendizagem.

A metodologia CLE pode ser usada em qualquer parte  do mundo, em qualquer língua, para alfabetizar crianças, jovens ou adultos.
É organizada em três níveis, ao fim dos quais 
os alunos estarão em condições de ingressar no mercado de trabalho, quebrando o círculo vicioso de perpetuação da miséria pela ignorância.

 Isso ocorre porque um programa não pode ser  transportado de um lugar para outro. Cada programa deve ser desenvolvido no local onde será implantado e, de preferência, pelos professores. 
Desta forma, as necessidades e a cultura local  são respeitadas!

O ponto de partida é um texto relacionado a necessidades reais,
do dia a dia, como hábitos de higiene, por exemplo, ou a apresentação de uma atividade “passo-a-passo”. Com crianças são utilizadas histórias simples que, além conterem os componentes de encanto e fantasia, ajudam na interiorização de conceitos e valores para a vida.
No caso de principiantes, são preparadas Unidades apresentadas
e trabalhadas em cinco passos:

1º Passo – Leitura compartilhada 
2º Passo – Relato e dramatização da história 
3º Passo – Negociação do texto 
4º Passo – Confecção do Livro Coletivo 
5º Passo – Atividades Linguísticas Através de Jogos

 

No 1º Passo o professor deve utilizar todos os recursos
possíveis para que o texto seja compreendido, a começar pela
exploração da capa do livro e das ilustrações, bem como expressão
facial e entonação de voz.

No 2º Passo os alunos contam a história e a representam.  
É o momento de se expressarem e de demonstrarem o que
entenderam. As crianças mais tímidas não devem ser forçadas
a representar papéis de destaque. Podem ser narradoras e  
assumir papéis mais simples até se sentirem confiantes.


No 3º Passo os alunos, com o estímulo do professor, contam
a história como a compreenderam, e o professor a escreve.
É importante notar que o texto negociado não é uma reprodução
da história ouvida e representada. Isto significaria
uma falha na execução do 2º Passo.

No 4º Passo, após diversas leituras do texto negociado,
os alunos fazem o Livro Coletivo. Este é constituído do texto
negociado, que os próprios alunos escrevem e ilustram e que
será a base das atividades do 5º Passo.

O 5º Passo é constituído de atividades linguísticas através
de jogos, sempre a partir do texto do Livro Coletivo. Alguns
exemplos de jogos são:

  • Reconhecer palavras contidas no Livro Coletivo com a utilização de fichas, bingo, cruzadas, caça-palavras, etc.
  • Ler sentenças que contenham palavras do Livro Coletivo, trabalho em duplas.
  • Escrever palavras do Livro Coletivo: ‘forca’, ditado...

 
Como se pode notar, a dificuldade das tarefas realizadas  através de jogos vai aumentando até se atingir o ponto em que os alunos criam novos textos, oralmente e por escrito. 
No caso de uma atividade passo-a-passo, somente o primeiro e o segundo passos são diferentes. Em primeiro lugar demonstra-se como fazer a atividade – a germinação do feijão, por exemplo – e, em seguida, os alunos a reconstroem. A atividade também pode ser demonstrada por um profissional, como é o caso de noções de higiene e saúde ou trabalhos  manuais.

Não há uma duração preestabelecida para as unidades. Elas devem durar o tempo necessário para que os alunos aprendam
os conceitos, leiam e escrevam com desenvoltura. A avaliação
vai sendo feita à medida que as atividades são realizadas.
Calcula-se que, durante um ano, sejam trabalhadas entre
10 e 15 unidades.

O CLE, por destinar-se também a alunos que precisam
aprender uma segunda língua, como é o caso da Austrália, da
Índia e da Tailândia, por exemplo, e baseia-se no processo de
aquisição das quatro habilidades linguísticas:

  • ouvir
  • falar
  • ler
  • e escrever.

 Utiliza, portanto, elementos da Abordagem Natural e da Abordagem Comunicativa. Isso se reflete em todos os passos, desde a leitura da história até as atividades linguísticas através de jogos, porque há uma ênfase no uso adequado da língua em diversos contextos sociais e o professor e os alunos se utilizam também, como dito anteriormente, da expressão facial e da expressão corporal para negociar os significados. 

O ensino da leitura é visto, portanto, como um processo
interativo entre autor e leitor, em que o raciocínio desempenha
um papel central, estimulado pela língua falada e pela
expressão facial.

O processo CLE de ensino parte, então, de textos ou livros
de história ou de um texto passo-a-passo e, ativando
constantemente o raciocínio, utiliza-se da língua falada
(ouvir e falar) e da língua escrita (ler e escrever) com o auxílio da
expressão facial.

Apoio pela contextualização

Isto nos remete a um princípio fundamental do CLE: o
scaffolding, que é o apoio através da contextualização.
Todas as atividades linguísticas têm origem em um texto ou
história que, inicialmente, é ouvida, mas não de forma passiva.
A exploração das ilustrações estimula o raciocínio e já
constitui uma primeira oportunidade de expressão oral. Este
é o passo inicial para a contextualização. Nos passos seguintes,
todas as atividades são realizadas a partir do contexto da
história ou da atividade passo-a-passo, o que praticamente
elimina a possibilidade de algum aluno ficar excluído por não
compreender o que está acontecendo.

Devemos lembrar, também, que a articulação clara das
palavras é um apoio para a escrita correta, e as atividades de
escrita são precedidas pelo trabalho oral.

Como foi dito no início desta exposição, Richard Walker,
Saowalak Rattanavich e John Oller, Jr. atribuem grande parte
do fracasso escolar aos procedimentos tradicionais em sala
de aula. A metodologia CLE propõe mudanças
nesses procedimentos.

Uma descrição do que ocorre em uma sala de CLE
deixará claro o ponto de vista dos autores:

  • as atividades dos alunos são sempre relacionadas a contextos da vida real que sejam importantes para eles;
  • os alunos são estimulados a trabalhar de maneira independente,
  • ao invés de apenas seguir instruções do professor; são utilizados jogos e canções para dar mais vida à aprendizagem;
  • os alunos se habituam a ler e fazer atividades em que          aprendem a língua fora da escola;
  • a aprendizagem ocorre através da interação aluno-aluno e alunos-professor;
  • a negociação de significados é constante, com a mediação do professor;
  • não se prescreve um ritmo de aprendizagem; os alunos participam
  • das atividades independentemente de seu estágio de aprendizagem;
  • muitas atividades são desenvolvidas em grupos, o que          estimula a troca de idéias e a cooperação;
  • os alunos se responsabilizam pelas próprias atividades;
  • a disciplina é positiva porque os alunos estão voltados para o trabalho que estão realizando; 
  • ao assumir responsabilidades os alunos desenvolvem a auto-confiança.

Esses procedimentos fazem com que a alfabetização
aconteça rapidamente porque os alunos estão constantemente
realizando atividades significativas ligadas à leitura e à escrita.

Os objetivos que se buscam atingir são:

  •  trabalhar as unidades até o fim, através dos cinco passos, para que os alunos aprendam a agir com independência;
  •  promover a participação intensa dos alunos porque, quanto maior for o seu envolvimento, mais rápida será a aprendizagem;
  •  incentivar os alunos a desenvolver suas características pessoais, além da auto confiança e da disposição de fazer
  • tentativas e correr riscos para dominarem uma nova habilidade.

 

Também é importante lembrar que um programa CLE
requer poucos recursos para ser implantado. São necessárias
folhas de papel de aproximadamente 60 cm X 40 cm
(um bloco A2, por exemplo), em que são escritos tanto o texto
negociado com os alunos quanto o Livro Coletivo,
pincel atômico, lápis pretos, lápis de cor, tesoura, cola,
grampeador e outros materiais simples para as primeiras
Unidades Passo-a-Passo.

Entre o 4º e o 5º Passos os alunos podem fazer livros
individuais que vão formar sua pequena biblioteca. O custo
do material por turma de 30 alunos é estimado em
US$ 60.00 por ano.

Uma última observação que gostaria de fazer é que, na
Tailândia, a metodologia CLE foi adotada na rede oficial de
ensino quando o ministério da educação constatou os resultados
obtidos nos primeiros projetos implantados em regiões
isoladas e com altos índices de analfabetismo e de fracasso
escolar e que, ao longo de pouco mais de dez anos, o analfabetismo foi praticamente erradicado daquele país. Daí o seu
lema ser “transformar o fracasso em sucesso”.




O CLE também é empregado com muito sucesso no letramento de adultos: RC de Contagem, MG , Brasil 


Adultos do Nepal letram-se com o métido CLE: RC Damauli 


Crianças  alfabetizam-se brincando: RC de Contagem, MG, Brasil 


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